Slide1a

Assista ao vídeo. Clique no play abaixo.

FIO DE LÃ

Maria de Loudes Hortas

Quando no Tejo embarquei
Tinha um xailinho pra frio
Que os mares de sete dias
Desmancharam em novelo

Aqui achei outro rio
E de Bandeira roubei
O primeiro alumbramento
Desbotaram os rosados
De minha face europeia
Amorenei, inteirinha
De menina, virei moça,
Troquei o falar castiço
Por sotaque
Tropical
Arrastado e mestiço.

Se esqueci das amoras?
Das quintas e das latadas
Das fontes, grilos, giestas
Primaveras e outonos?

Passei a colher pitombas
Jambos, mangas, carambolas
E me entreguei à passagem
Às praias, coqueiros, pontes.
Mas a ponta inicial
Daquele fio de lã
Azul e quente da infância
Ficou por certo amarrada
Do outro lado.
Fixa por limos do tempo
Ainda existe, raiz
E insiste
Em meu canto.

Só isso não consegui
Ao passar o Equadro:
De minha alma-guitarra
Fazer um clarim-metal.

Insisto, a culpa é da lã
Aquele fio azulado
Que reteve o meu cantar
Longe, longe
Do outro lado.
Por ele caminham ondas
De atavismo irrecusável
Lírica voz portuguesa.
E em minhas cantigas todas
Por mais que busque alegria
Choro fado
Com certeza.

(In Fio de lã. Recife, 1979 – edição do
Gabinete Português de Leitura)

Comments.

Currently there are no comments related to this article. You have a special honor to be the first commenter. Thanks!

Leave a Reply.

* Your email address will not be published.
You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>